Foto: Alexandro Auler

Há algumas semanas, na biblioteca da Universidade, contei a uma garota que estava estudando fotojornalismo. Quieta por uns segundos, fitou os olhos nos meus e questionou: por que gosta de fotografar pessoas em sofrimento? Ou de tragédias? Admito que não sabia o que responder. Embaraçado por falta de argumentos momentâneos, forcei um sorriso envergonhado e segui com meus livros, mas pensando: o que repórteres fotográficos buscam contar com essas imagens?

No documentário Hondros (Netflix), Chris Hondros, falecido durante os conflitos da Líbia, em 2011, afirmou: Não sou desses que trabalha com fotografias de guerra pela adrenalina. Acredito na fotografia e no seu papel no sistema internacional. James Natchway, em Fotógrafo de Guerra (Christian Frei Film Productions), disse que escolheu essa profissão porque buscava trazer uma consciência social sobre o que estava acontecendo longe da sociedade ocidental. Don McCullin, outro ícone da profissão envolvendo conflitos bélicos, em seu documentário McCullin (Artificial Eye), questiona a humanidade que, por ganância e poder, sempre propiciou genocídios sob justificativas religiosas e morais; é essa a ideia que busca exemplificar com suas fotografias – a verdade crua. Diferentemente dos anteriores, Sebastiao Salgado é referência na exposição crua da humanidade e natureza. Em entrevista ao El País, afirmou: foi dito que eu fazia estética da miséria. Ridículo! Fotografo meu mundo. Salgado capturou em Serra Pelada, no Pará, a miséria do maior garimpo do planeta daquela época; era a verdade daquele mundo. ‘Trata-se de mostrar a verdade’, acentua Alexandro Auler, fotojornalista gaúcho.

HISTÓRIA

Foto: Alexandro Auler/Arquivo Pessoal.

Nativo no Rio Grande do Sul e de berço jornalístico, Alexandro Auler é filho de arquiteto e fotógrafo amador. Seu tio foi um famoso jornalista do Rio de Janeiro, que contribuiu com alguns dos maiores jornais da época, como O Dia, Jornal do Brasil e Revista Manchete. Quando conseguia, levava o sobrinho para passar os dias na redação e, assim, Auler apaixonou-se pela profissão, mas não foi um coup de foudre (amor à primeira vista), foram anos de convívio. Na infância, mudou-se para o Rio de Janeiro e, antes dos 19 anos, já na graduação em jornalismo, conseguiu o primeiro estágio como repórter fotográfico na Baixada Fluminense.

Quase um nômade, caminhou pelo Brasil por uma dezena de oportunidades, estudos e amor. Em uma dessas andanças, encontrou um emprego em tempo integral como jornalista e, infelizmente, acabou desligando-se do curso: “É um preço que eu pago agora… Não me arrependo, mas muitas boas oportunidades apareceram, principalmente como professor e, para isso, preciso de um diploma. Mas estou a voltar aos estudos”, conta com entusiasmo. Contudo, Auler conseguiu auferir uma carteira de jornalista por conta de suas reportagens publicadas.

Autodidata, filho de classe média, teve desde cedo ensejos de estudar línguas, fazer oficinas especializadas e outras parafernálias convergentes com suas vontades. Mas não se engane, Alexandro é um homem bonachão; e, com barba por fazer, sua fisionomia e escolhas de palavras refletem sua humildade.

OS CORPOS DE NORONHA

Em maio de 2009, um avião da Air France, do voo 447, que seguia do Rio para Paris, caiu no Oceano Atlântico. Algumas horas depois, descobriram que os corpos chegariam ao arquipélago de Pernambuco, Fernando de Noronha. Em férias, Auler foi contratado para ser um dos fotógrafos: “Recebi o telefone às nove da manhã. Duas horas depois eu já estava no avião […] A ideia era ficar apenas 2 ou 3 dias; ficamos 20. Nesse tempo, imprensa do mundo todo chegou. Tentávamos não nos comover, mas às vezes é difícil’, lembra o profissional. Após, mudou-se para o Rio de Janeiro e trabalhou para o Estado de São Paulo, Extra, Agência Estado e para a Getty Images (um dos maiores bancos de imagens do mundo), mas sempre cobrindo assuntos nacionais.

POR AMOR, À ITÁLIA. POR NOTÍCIA, À UCRÂNIA

Por um romance promissor, viajou para a Europa com uma italiana, fotógrafa de moda e editora de imagens. Sem visto para trabalho, começou a investigar possíveis pautas como freelancer (profissional autônomo), assim como fazia para a Getty Brasil, na cidade de Bolonha, interior da Itália. Roma, Milão e Nápoles foram cenários de manifestações e, então, Alexandro teve sua primeira experiência jornalística no exterior.

Como todo jornalista, buscava em gazetas, revistas e jornais digitais sobre atualidades, em busca de pautas interessantes. Nessa época, o terrorismo ampliou-se de uma forma absurda no Oriente Médio e Norte da África e os ataques esporádicos na Europa estavam em seu ápice televisivo.  Se não fosse ainda pior para o mundo, paramilitares pró-Rússia, que estavam dispostos a anexar a cidade ucraniana, Criméia, declaram guerra à Ucrânia.

Em 2014, Auler viajou a Kiev, capital desse país, para reportar o conflito. Da capital, pelas urbes de Sloviansk e Kramatorsk, algumas das principais arenas de batalha dessa crise militar para chegar ao front: “você vive o conflito, e foi nesse que comecei a ganhar experiência. Só que pode ser frustrante, porque outros profissionais, tipo James Natchway, também estão cobrindo. Contudo, são nesses cenários que capturamos as imagens que ganham prêmios […] E, diferente do que se pensa, não tem troca de tiros todos os dias; isso é muito esporádico, sinceramente. Tínhamos que ir de automóvel, eu, o motorista e o guia, e dirigir 100 km até a linha de combate. No dia em que decidi não ir, um míssil acertou esse mesmo veículo, que usávamos, com 4 jornalistas”, descreve.  No fim, Auler conseguiu publicar imagens na National Geographic.

KOBANE, SÍRIA

Agora casado com a italiana, começou a planejar um novo projeto sobre homens e mulheres que estavam, sozinhos, combatendo o EI (Estado Islâmico). Querendo adentrar na Síria, viajou à Urfa, no sul da Turquia, para encontrar o seu guia de viagem o levou à Suruk, cidade fronteiriça de Kobane. “Fui recebido na habitação Amara Cultural Center e me colocaram para dormir numa barraca com pessoas desconhecidas. As preces nas mesquitas me acordaram e pude, enfim, visitar esse centro cultural que controlava, na época, 4 campos de refugiados curdos”, relata Auler.

O grupo dessa habitação faz uma seleção de ativistas, jornalistas e militares com intuito de lutar contra o EI. É necessário saber que a Turquia não mantém relações diplomáticas com a Síria; portanto, teriam que entrar ilegalmente. Durante a noite, viajaram no breu com outros dois guias: “tínhamos que seguir as ordens: Stop! Run! Caso contrário, você seria pego pela polícia. Chegamos em uma cerca, nos esgueiramos e alguns ainda se machucaram e, quando isso acontece, perde-se muito tempo. Era muito provável que a polícia nos pegaria. Já no outro lado, um carro nos esperava e chegamos a Kobane, província de Alepo”, conta Auler, de um modo cinematográfico.

Em Kobane, foram recebidos por jornalistas sírios/curdos que viviam no Media Center, um apartamento no meio dessa cidade completamente destruída por misseis e, junto, uma guarda armada. “Esse apartamento estava cheio de jornalistas, ativistas e outras pessoas que eram contra o Estado Islâmico. Todos os dias, chegavam novas pessoas, que falavam outras línguas e, no outro, iam embora. Eu assisti muitas irem… Bom, fiquei 1 mês lá […] Pela manhã, separavam um grupo que queria fotografar. Mas dependia muito do dia; não era possível ir em todos os lugares. Aquele povoado estava cercado pelos terroristas e era perigoso demais, diziam os jornalistas e os soldados. Apesar disso, fotografei coisas esperançosas: volta às aulas, reconstrução da cidade, a padaria, a festa de fim de ano dos curdos e por aí vai”, conclui o fotógrafo.

Centro de Kobane

Fotografia de Alexandro Auler. Na foto, centro de Kobane em ruínas junto a tanque inimigo destruído.

Em 30 dias de vivência, descobriu que o terrorismo tinha sido vencido naquela cidade, por um exército voluntário de mulheres e homens e com um poderio bélico muito inferior ao do inimigo. Alexandro foi o primeiro a chegar em Kobane para reportar esse exército e conseguiu as primeiras imagens. “Depois de mim, foi o Gabriel Chaim, um jornalista brasileiro que produz matérias para o Fantástico, e o Mauricio Lima que, na minha opinião, é o melhor fotógrafo do Brasil”, afirma. Ainda em 2015, Gabriel acabou sendo preso na Turquia enquanto tentava atravessar a fronteira do país com a Síria. Ele acabou sendo deportado para o Brasil. Mauricio ganhou um Pulitzer no ano de 2016 por suas imagens sobre os refugiados na Europa.

Dentre centenas, mais escombros de antigos prédios residenciais situados no centro de Kobane.

Na estadia, Alexandro foi convidado por um general do exército do Curdistão, região federal autônoma do Iraque, chamado de Pashmerga (aqueles que enfrentam a morte, em curdo), que também estava enfrentando o terrorismo. “Como eu era o primeiro brasileiro e existe aquele estereótipo do futebol, samba e carnaval, eles ficaram interessados. Depois me convidaram para visitar a região de Mussul, Iraque. Nessa época, eu já tinha voltado para a Turquia e foi mais fácil entrar em território iraquiano, até porque eu tinha um convite de um militar. Viajei até Arbil, segunda maior cidade do país, depois para Bagdá. Estive em muitas bases militares e fronts, mas sem ação. Foi um bom aprendizado”, conclui. Esse foi o fim da jornada de Alexandro Auler, antes de retornar ao Brasil.

YPI. YPJ. FACES DE UM CONFLITO

 Guerrilheira pela YPJ. Foto: Alexandro Auler/Arquivo Pessoal.

Em Faces de um Conflito (Deeper Produções), documentário gravado durante sua estadia em Kobane, Alexandro Auler conheceu os exércitos voluntários, Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ, em curdo) e Unidades de Proteção Popular (YPG, em curdo): “são homens e mulheres comuns. É o senhor do mercado, o carpinteiro, a dona de casa, a jovem que está renunciando à vida amorosa, profissional e familiar para lutar contra o terrorismo. É esperançoso ver que, apesar disso, eles querem voltar à vida ordinária; eles não desistem nunca!”, afirma Auler entusiasmado.

Além disso, o filme nos leva a momentos culturais do povo curdo como os peculiares funerais  e a celebração do Newroz, conhecido como o Ano Novo Curdo, sob a ótica de um Videomaker iraniano, Soran Qurban, que se viu abalado com  os entrevistados kobaneses obrigados à lutar pela sobrevivência, com os rituais fúnebres e as celebrações de um novo ano.

Tanto na obra cinematográfica, quanto na entrevista e na análise das imagens, o fotógrafo ilustra a sobrevivência daquele povoado. A vontade de mudança. A reconstrução de algo completamente dizimado pelo mal. Não aceito que sejam rotulados, pelo senso comum, como um grupo de Schadenfreude (pessoa que sente alegria na dor alheia). Depois dessa odisseia, acredito que encontrei uma resposta para a pergunta escrita no começo. Só espero rever essa garota.