Em 2017, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou que apenas 16% dos professores que ministravam aulas em universidades no Brasil se autodeclararam pretos ou pardos. A partir desse dado, os professores Sátira Pereira Machado e Carlos Nelson dos Reis, doutora em Comunicação e doutor em Política Econômica pelas PUCRS, respectivamente, foram convidados a relembrar suas trajetória na Universidade até a docência e refletir sobre as oportunidades de ensino para a população afrodescendente. 

Sátira conta que teve muito incentivo de seus pais para ingressar, na época, na Faculdade de Comunicação Social – (Famecos), “minha família é de professores, então, para eles, eu tinha que ir para universidade”. Já a família de Carlos Nelson, não tinha condições de custear uma universidade particular, portanto, o professor conta que precisou trabalhar para sustentar seus estudos. Ambos acreditam ser privilegiados por conseguirem pagar a faculdade, reconhecendo que essa não é uma realidade que alcança a todos. Durante o percurso de graduação os professores relatam sentir que eram os únicos negros em sala de aula, com exceção de algumas cadeiras, em que encontravam mais um ou dois colegas negros. Ao se formar em 1977, Carlos Nelson relembra ser o único formando negro e Sátira ao se formar quase duas décadas depois, em 1995, conta que “eram eu e mais dois colegas negros naquela turma”. Essa realidade segue no mestrado e na docência.  

Ao serem perguntados sobre situações que marcaram suas trajetórias de maneira negativa como professores na PUCRS, os dois relatam episódios de preconceito. Sátira conta que como pesquisadora da cultura afro no EDUCOM AFRO – Educomunicação e Produção Cultural Afro-Brasileira e do Núcleo de Estudos em Cultura Afro-Brasileira e Indígena, procurava elaborar eventos para debater a temática em parceria com a Famecos, muitas vezes, encontrando resistência de seus colegas, “por ser uma mulher negra atuante no movimento, toda a representatividade que isso trazia, incomodava muita gente que não queria esse tema fosse tratado ali”. Carlos Nelson relata os primeiros dias de aula percebia os semblantes dos alunos “surpresos, outros sem entender e outros até bravos”, segundo ele “faziam perguntas capciosas, esperando que eu errasse”. O professor segue: “isso na época me fez mal, me causou até um certo sofrimento, mas posteriormente eu entendi, não teria como não ser assim, porque esse status de professor, num estado conservador, numa cultura conservadora, é um status que dá certo destaque, respeito, então, não era um lugar para negro”.

Sobre as oportunidades de ensino para a população negra, os professores citam o fim ao trabalho escravo como muito recente, 131 anos passados, que chegam até três gerações de famílias descendentes. Portanto, os resquícios deixados por esse período cruel ainda são presentes, por exemplo, a lei que determinava o racismo como crime no Brasil aconteceu mais de um século depois, em 1989. Os docentes acreditam que as políticas públicas de cotas nas universidades são necessárias tornar o ambiente mais igual, afinal pretos e pardos correspondem a 53% da população brasileira.