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julho/2015 | Artigos

Queimamos os sutiãs…

Fomos as ruas, lutamos pelos nossos direitos.

Passeata pelos direitos das mulheres em 1970 em Washington, D.C. Foto: Leffler, Warren K.

A primeira onda do feminismo surgiu no final do século XIX, com as famosas “Sufragetes” na Inglaterra, onde a luta que se popularizou foi pelo direito ao voto. Foram grandes manifestações promovidas em Londres, levando diversas mulheres à cadeia. O direito ao voto só foi conquistado em 1918. Bertha Lutz foi a líder das sufragetes brasileiras. A bióloga e cientista que estudou no exterior voltou ao Brasil na década de 1910 e foi quando começou a lutar pelo direito ao voto. Uma das fundadoras da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino levou, em 1927, um abaixo-assinado ao Senado, pedindo a aprovação de um Projeto de lei que dava direito de votar às mulheres, o que só foi conquistado em 1932, com a promulgação do Novo Código Eleitoral brasileiro, no governo de Getúlio Vargas.

Em 1960, o feminismo aparece mais como um movimento libertário, que luta não só por direitos legais, como educação, espaço no mercado de trabalho e na vida pública, mas também por uma mudança no relacionamento entre homens e mulheres, procurando liberdade e autonomia para sua vida e seu corpo. Nos anos 1980 com a redemocratização do país, surge um “boom” do movimento no Brasil, onde coletivos são criados em todas as regiões e tratam de muitos temas, como violência, sexualidade, igualdade no casamento, direito à saúde materno-infantil, direito ao trabalho, direito à terra, luta contra o racismo e até mesmo opções sexuais. Esses grupos, lutavam junto a coletivos populares de mulheres que estavam em bairros pobres e buscavam habitação, saneamento, educação e saúde.

Algumas das maiores conquistas do feminismo brasileiro foram a criação do Conselho Nacional da Condição da Mulher (CNDM), em 1984, que junto com o Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA) e outros importantes grupos, lançaram a campanha nacional pela inclusão dos direitos das mulheres na nova carta constitucional e resultou em 1988 uma das constituições que mais garante direitos à mulher no mundo. Em 2006, quando a luta central da época era a violência contra a mulher, principalmente doméstica, além das Delegacias Especiais da Mulher ao redor do país, a conquista da Lei Maria da Penha (Lei n. 11 340, de 7 de agosto de 2006), gerou mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher.

Hoje, as mulheres são maioria nas universidades brasileiras, segundo os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em 2010, as universitárias representavam 57,1% do total de estudantes. Contudo, elas sofrem diariamente assédio moral e sexual, não só no ambiente universitário, mas também nas ruas, lidam com um futuro de desigualdade salarial, são julgadas pelo seu comportamento e maneira de vestir e ainda não há legitimação da autonomia do seu próprio corpo. Pensando nisso que mulheres uniram suas forças e organizaram coletivos feministas, os quais, independentemente de sua vertente, buscam acabar com o patriarcado da sociedade atual e com as desigualdades entre homens e mulheres.

 

… E agora,

O que mais precisamos fazer para manter nossos direitos?

Manifesto Marcha das Vadias 2011 – Brasília Foto: Priscila Musa.

A redemocratição do Brasil garantiu direitos essenciais à população, o sentimento de liberdade tornou-se motivo de comemoração. A geração jovem atual não viveu o período ditatorial, mas consegue ver e entender os progressos os quais o fim da ditadura proporcionou. Entretanto, a população se acomodou, mesmo insatisfeita não lutava por melhores condições nem as exigia do governo.

Em abril e maio de 2013, ativistas porto-alegrenses organizaram manifestações, que tinham como objetivo diminuir o valor das passagens na capital. Com êxito, Porto Alegre serviu de exemplo para  São Paulo, que foi a segunda capital a manifestar-se com a mesma pauta. Linchados pela polícia militar, os manifestantes, em sua maioria estudantes, geraram indignação por todo o Brasil. Junho de 2013, ficou marcado por manifestações com inúmeras pautas, entre elas:  passe livre, homofobia, não à Copa do Mundo, corrupção etc. Demostrava a insatisfação do povo com a maneira que se governava o país.

Os movimentos sociais, como o feminismo, perceberam a abertura de um espaço – físico, mas também midiático e político – que encerra o processo de redemocratização e inicia um novo ciclo de participação no Brasil. A observação crítica de fatos históricos atuais revela  por que mulheres organizam coletivos que reivindicam direitos que garantem autonomia de seu próprio corpo. O movimento feminista nada mais é do que um movimento cíclico, pois as reivindicações de hoje são pelos mesmos motivos de lutas do passado. Por conta de um grande retrocesso, não só legislativo mas também em relação à saúde e segurança das mulheres, que têm sido negligenciados nos últimos tempos, os movimentos estão, hoje, voltados à pequenas reformas, de garantir direitos já conquistados.

A Marcha das Vadias foi o primeiro movimento popular do gênero, que gerou grande repercussão por todo o país. As mulheres saíram as ruas, desnudas, com os corpos pintados e cartazes, escancarando sua indignação com a repressão da sociedade machista, que julga mulheres por sua forma de agir e vestir. O grito de luta não era apenas com o foco numa mudança comportamental, mas também por reformas legislativas.

O Coletivo Feminista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, se organizou após diversos problemas, os quais as mulheres enfrentavam dentro da universidade. Os trotes organizados pelo antigo DCE (Diretório Central dos Estudantes) submetiam mulheres à situações de constrangimento. Motivados pela repulsa de tais acontecimentos, os estudantes elegeram um novo DCE. O Coletivo, então, organizou atividades em que debatiam o feminismo na universidade e fora dela. “Quanto mais acertada é a politica do coletivo feminista, mais agrado isso causa nos homens”, revela Maria Fernanda, militante do coletivo feminista da UFRGS em relação à boa aceitação masculina dentro da universidade.

A necessidade da politização do feminismo foi percebida pelo movimento Juntos do Partido Socialismo e Liberdade – PSol, que criou uma subdivisão voltada para o debate feminista. O coletivo Juntas busca tornar visível a questão da mulher, sua exclusão e desigualdade, na sociedade.  “O debate feminista  acontece principalmente nas universidades, tentamos quebrar isso, somos feministas classistas. Queremos ajudar as mulheres trabalhadoras, oprimidas por não ter como ir trabalhar, já que não há creches para suas crianças,” diz a ativista Isabella Paiva que milita no feminismo há três anos e ingressou há um ano no coletivo Juntas do PSol. São necessárias  estratégias capazes de enfrentar as questões que limitam a evolução do movimento.

Como consequência de atividades e debates realizados por coletivos feministas, muitas mulheres que não tinham acesso à esse tipo de informação começaram a debater e entender o feminismo. Pensando nisso um grupo de amigas criou um projeto com a intenção de fazer um vídeo que mostrasse o assédio às mulheres nas ruas de Porto Alegre. Porém, o projeto cresceu e se tornou um coletivo que busca dialogar com a população feminina da capital. “Se essa rua fosse nossa” divulga o feminismo nas redes sociais, e também nas ruas onde os abusos são intensos e frequentes.  As atividades externas do grupo  geram repercussão, novas pautas e alertas. As  rodas de debates, panfletagem, eventos em datas ícones, como o dia internacional da mulher, buscam conscientizar principalmente o público feminino, e também homens de que o machismo é repressor. “Não é ok. Queremos que as pessoas ensinem aos seus filhos que machismo não é ok”, alerta Viviane Tesche, integrante do coletivo.

Somente as mulheres sabem a dor da repressão, do assédio moral e sexual. É necessário orientar as mulheres que não sabem como proceder, têm vergonha e medo de se expor, a reagir. Todas temos que reagir contra qualquer espécie de afronta as mulheres. Afinal somos iguais e devemos ter o direito de andar seguras, não nos preocupar com a roupa que estamos usando, ter autonomia sobre nosso corpo, igualdade salarial, políticas públicas que nos protejam. “Eu milito no feminismo para que um dia eu não precise do feminismo!” A exclamação de Maria Fernanda, que é militante feminista desde os treze anos, e atualmente integra o Coletivo Feminista da UFRGS e participa do movimento Marcha das Vadias.

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