Foto: reprodução Unesco Institute

Ana Thereza Botafogo Proença aprendeu a ser cerimonialista completamente na prática. Formada em administração e design de moda, trabalhou com produção cultural, cerimonial de governo e organização de eventos. Sua experiência a levou ao cargo que exerce hoje. Aos 49 anos, ela é a responsável pela elaboração dos eventos promovidos pela Unesco no Brasil.

 

Trajetória

Ana trabalhou dos 15 aos 27 anos como produtora cultural. “Produzi show de música baiana, camarim do Chiclete com Banana, fui produtora de dança contemporânea, desfiles, entre outros eventos culturais. Fiz de tudo. Foi assim que aprendi a conhecer som, iluminação… Houve uma época em que produzia no mínimo oito eventos por semana”, conta.

Aos 27 anos foi trabalhar como mestre de cerimonias no governo do DF diretamente com o governador. Foi quando ela engravidou da filha e precisava de um emprego – não mais freelas. “Foi uma oportunidade enorme. Aprendi a realizar todos os tipos de cerimonial. Dos mais simples à comitiva de Pequim no Palácio, aprendi na prática. Errei muitas vezes e aprendi com os erros”, confessa. Depois, abriu uma empresa de eventos em sociedade com uma amiga, o que, segundo ela, foi fácil depois daquilo tudo que já havia feito. Durante seis ou sete anos, a empresa atendeu ótimos clientes em Brasília, como o Banco do Brasil, os Correios, a Caixa Econômica Federal. Organizava desde pequenas cerimônias até receptivo da Seleção de Vôlei campeã olímpica em Brasília. “A Unesco soube do nosso trabalho e nos chamou para organizar um evento”, diz.

Apesar do sucesso da empresa de eventos, Ana conta que ela não dava dinheiro. “Nós trabalhávamos muito, mas ganhávamos pouco”, lembra. Aos poucos, ela começou a fazer mais e mais trabalhos para a Unesco e acabou migrando para a organização. Está há 18 anos organizando os eventos da Agência internacional. Segundo Ana, os quatro pilares da educação, criados pela Comissão Internacional sobre Eduação em um relatório para a Unesco, guiam a vida dela – Aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser – “Eu acho que foi isso a minha vida”, reflete.

 

O Trabalho na Unesco

De acordo com a profissional, trabalhar numa agência como a Unesco é muito diferente das experiências anteriores. “Eu fazia produção cultural e cerimonial de governo, que era algo mais dinâmico. Na Unesco é muito mais formal, é um organismo internacional, recebe delegações estrangeiras, políticos, é mais duro. Quando recebemos a Diretora Geral, por exemplo, é uma loucura. Ela tem status de Chefe de Estado e eu nunca tinha recebido um. Envolve batedores, Polícia Federal”, explica.

A diretora geral da agência é a francesa Audrey Azoulay, que assumiu o cargo em 2017 e é a segunda mulher na posição. “Promovemos diversos seminários que giram em torno dos temas de abrangência da Unesco: educação, ciência, cultura. Já temos uma rotina, uma dinâmica para montar os seminários. Agora, quando a gente recebe a Diretora Geral da Unesco, aí é mais complicado, porque não depende só da gente. Depende também das autoridades locais, do Itamaraty, do Ministério da Educação. Temos que organizar agendas, os temas a serem abordados e com quem, reuniões paralelas que precisam acontecer. Então, eu diria que é um dos nossos desafios. Mas é lógico que quando a gente recebe qualquer comitiva aqui é um desafio porque a gente tem que lidar com o país que está solicitando a visita e fazer com que o Brasil receba da melhor forma essas autoridades que estão nos visitando”, pontua Ana.

 

O Brasil e a Unesco

Segundo Ana, o fato de o Brasil investir pouco nas áreas de abrangência da Unesco, de certa forma, torna o trabalho mais difícil. “A representação da Unesco no Brasil tem enormes desafios. Minha missão é fazer com que os eventos todos aconteçam e que esses temas sejam discutidos. Eu não me envolvo diretamente nas ações, mas escuto discussões calorosas e tenho a oportunidade de ouvir quem vive as dificuldades, além de especialistas, autoridades, políticos que querem realmente resolver os problemas que o mundo e o Brasil têm nessas áreas, desde o analfabetismo até a falta de água e comida e a preservação de patrimônio histórico. Trabalhar com cerimonial também te dá a oportunidade de presenciar momentos que você não viveria se não trabalhasse ali. Isso é super rico para mim”, observa. A entrevistada afirma que uma grande vantagem é que, como a Unesco é um organismo internacional, ela trabalha com todos, independentemente de partido. A organização trabalha pela causa, a arte de se relacionar com o mundo.

“A gente tem algumas conferências internacionais. Nessas ocasiões a gente recebe vários tipos de pessoas. Por exemplo, às vezes vêm muçulmanos que não comem determinadas coisas. Tem que se preocupar com a cultura de cada um. Até para evitar gafes”, ensina. Ana se lembra de uma dessas conferências, que foi sobre a educação ao longo da vida e ocorreu em Belém do Pará: “Eram umas quatro mil pessoas de diversos países do mundo. Eu pensei que fosse ficar louca nesse evento de tantas questões para resolver. E tivemos o caso de um homem que veio de um lugar do qual eu nunca tinha ouvido falar: Quiribati, um arquipélago da Oceania formado por 33 ilhas de coral e vários atóis. Era um palestrante especialista em educação. Assim que ele chegou em Belém, teve um ataque cardíaco. Pedi o telefone dele para ligar para a família em Quiribati e o número que ele passou tinha apenas quatro dígitos. Tivemos que pedir ajuda ao Itamaraty para fazer a ligação. E essa pessoa ficou quatro meses no Brasil para ficar bem e poder voltar ao seu país. Foram quatro meses de assistência que tivemos que dar com o Itamaraty intermediando.

Nesse mesmo evento, havia várias sessões com ministros e até príncipes e princesas. Um representante do Vaticano me procurou para dizer que queria compor uma determinada mesa, porque representava o Papa e precisava falar. Só que no cerimonial não tinha a informação sobre essa pessoa na mesa. Tivemos que levar o assunto a uma comissão. O evento acontecendo, mil jornalistas, pessoas pedindo de tudo e mais esse problema. Aí, me avisaram que ele não poderia estar na mesa porque o Vaticano não é membro das Nações Unidas. E aí? Como dizer para o representante do Papa que ele não vai falar no evento? Tem todas essas situações. Por sorte, um pessoal de Paris, da sede, se encarregou de dar a notícia. Ele ficou indignado e se retirou do evento.” Apesar de lembrar da história com bom humor, ela adverte que um bom profissional tem que tentar resolver todos os problemas da melhor forma possível, mesmo quando eles surgem no calor do momento: “Muita coisa acontece. Muita coisa mesmo”.

 

Trabalho e emoção

A cerimonialista contou que seu trabalho muitas vezes a faz vivenciar momentos de comoção: “Já fizemos vários eventos dentro de comunidades. É sempre um lugar que me emociona muito. As pessoas do morro são muito discriminadas e quando você sobe, você conhece seres humanos maravilhosos, com capacidade de produção enorme e que, muitas vezes, não conseguem se desenvolver porque não têm acesso à educação. São pessoas para quem são negadas oportunidades, educação, saneamento básico, segurança, saúde.” A Unesco acredita que formas alternativas de integração, socialização e regeneração social têm a capacidade de romper as barreiras da exclusão e da marginalização enfrentadas pelas comunidades de favelas, abrindo possibilidade para a construção de soluções para os problemas sociais encontrados nesses ambientes.

“Uma vez fomos visitar uma creche no Morro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, inclusive era um projeto do Criança Esperança. Chegamos às 11 horas da manhã e encontramos todas as crianças, entre 2 e 5 anos, dormindo. Achei aquilo esquisito. Àquela hora criança tinha que estar correndo, brincando. A assistente social falou: ‘Elas passam a noite acordadas por causa dos tiroteios na madrugada’. Naquele dia, eu achei que fosse virar do avesso. É a realidade das crianças da comunidade”, lembrou Ana emocionada.

A organização também tem como um de seus valores trabalhar com e para a juventude, se comprometendo a dar autonomia aos homens e às mulheres jovens e a ajudá-los a empenharem-se juntos para estimular a inovação e a mudança social, a participar ativamente no desenvolvimento de suas sociedades, a erradicar a pobreza e a desigualdade, e a promover uma cultura de paz. Proença contou mais uma história que lembrou o quanto esse trabalho é importante: “Outra vez, fomos na Favela da Maré e vimos meninos de 11, 12 anos com armamento pesado tomando conta de boca de fumo em vez de estar estudando. Aí a gente percebe que alguma coisa está fora da ordem. Vejo muita coisa injusta e tenho cada vez mais vontade de ajudar a mudar, fazer com que algo dê certo. Uma realidade tão longe e tão perto de nós. Muitas vezes algum projeto da Unesco nos possibilita isso, transformar uma realidade”, conclui.

 

A UNESCO

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura é uma agência especializada das Nações Unidas com sede em Paris, fundada em 4 de novembro de 1946. A agência foi criada com o objetivo de contribuir para a paz e a segurança no mundo, mediante a educação, ciências naturais, ciências sociais/humanas e cultura.

A estratégia no Brasil é alinhada à da organização em nível mundial. As prioridades programáticas da UNESCO no país se definem pela identificação dos desafios conjunturais brasileiros, nos quais a Organização fundamenta seus objetivos estratégicos para cada uma de suas áreas temáticas: