Quando o Papa Francisco foi eleito, Silvonei José Protz acompanhou de perto. Jornalista na Rádio do Vaticano a mais de 30 anos, acompanhou o Papa João Paulo II e o Papa emérito Bento XVI. Natural do Paraná, Silvonei é Doutor em Comunicação, formado em Jornalismo, Economia e Sociologia. Professor de Comunicação nas Pontifícias Universidades Gregoriana e Urbaniana de Roma.  Atualmente, é responsável pelo segmento em língua portuguesa do Vatican News, novo sistema de informação criado pelo Papa Francisco.

Em 2013, o mundo acompanhou o Habemus Papam, quando foi anunciado na Praça São Pedro, que o Cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, se tornava o  266º Papa da Igreja Católica. Logo no início, ainda na sua primeira bênção Urbi et Orbi ele revelou uma nova forma do Pontífice se comunicar com seus fiéis, assumindo uma linguagem verbal simples e direta e, também, nos seus gestos, manifestando humildade e proximidade, quando no gesto que ficou marcado na história, curvou-se pedindo a benção aos presentes.  Esta habilidade comunicacional do Papa, também, se estende a sua compreensão da gestão da comunicação. Em 2015, ele iniciou uma reforma da Comunicação do Vaticano com um Motu Proprio intitulado Instituição da Secretaria para a Comunicação, indicando que o próprio pontífice decidiu instaurar uma reforma significativa na gestão da comunicação da Igreja. “Foi o próprio Papa Francisco o promotor da iniciativa da criação de um novo organismo unitário de comunicação, no intuito de mudar a própria abordagem da Santa Sé com a notícia e com o modo de transmiti-la e divulgá-la ao mundo”, afirma Silvonei. A reorganização da comunicação vaticana está inserida nas inúmeras ações do Papa em responder cada vez melhor às exigências da missão da Igreja. “A reorganização da comunicação vaticana se insere no intuito e nos constantes esforços do Papa de dar um novo rosto à Igreja, um rosto mais atual, mais em conexão com as premências do povo”, acrescenta o comunicador.

Em relação aos desafios da comunicação nos dias de hoje, o jornalista ressalta que estão a verdade e autenticidade. “Sobretudo no mundo em que vivemos hoje, em que tudo passa através do nosso celular que nos bombardeia diariamente com notícias, muitas vezes, falsas e veiculadas apressadamente, sem serem devidamente conferidas antes de sua publicação”, diz Silvonei.

Vatican News, o novo sistema de informação do Vaticano

Vatican News é o novo sistema de informação da Santa Sé. Dividido em quatro áreas temáticas, que informam sobre a atividade do Papa, da Santa Sé, das Igrejas locais, como também apresentam as notícias do mundo. Tudo isso formado por uma “super-redação” composta por 40 seções linguísticas.

Silvonei vivênciou este processo, e, além de ser um processo de gestão, é um trabalho pastoral, pois, para ele “o Vatican News fala desse grande trabalho que me atrevo a definir, de uma certa forma,

 ‘revolucionário’, pela finalidade de se criar um organismo comunicacional novo e unitário, em uma época de grandes divisões e conflitos em todos os níveis.” Ao recordar a constante exortação do Papa para construirmos pontes e não muros, a criação do Vatican News representou um pequeno filho dessa vontade de unir, ao invés de separar, em absoluta contramão com a tendência do mundo atual.

As reformas do Papa não param, são como a área da comunicação, sempre em transformação. Silvonei recorda que “a

comunicação vaticana se dirige a todos, com o propósito de veicular notícias sobre o Papa, mas não só, pois grande espaço é também dedicado às notícias de atualidade e, ao que diz respeito em geral à Igreja no mundo.” Refletindo sobre os desafios de levar as mensagens de uma instituição global, o comunicador conclui “somos cerca de 40 redações linguísticas e cerca de 15 alfabetos diferentes. Uma pequena torre de Babel que deu certo.”

Linha histórica da Comunicação na Igreja

Desde muito tempo a Igreja Católica investe em comunicação. Confira a linha histórica da Relação da instituição com a Comunicação.

 

Confira a entrevista na íntegra com Silvonei José 

 

Atualmente, qual o seu trabalho na Rádio Vaticano?

Antes da reforma da comunicação vaticana, fui chefe da redação brasileira da Rádio Vaticano, tornando-me sucessivamente responsável pelo programa brasileiro da Rádio Vaticano desde setembro de 2014. A partir da reforma que criou o Vatican News fundindo todos os meios de comunicação em uma nova realidade unitária, cessou de existir a Rádio Vaticano como órgão autônomo; foram ainda criados seis segmentos linguísticos relacionados com as seis línguas principais da comunicação vaticana, ou seja: italiano, inglês, francês, espanhol, alemão e português. Dentro desses seis segmentos linguísticos, realiza-se hoje a produção jornalística escrita, radiofônica e televisiva. Atualmente, sou responsável pelo segmento em língua portuguesa do Vatican News, no que diz respeito à parte radiofônica e à realização e publicação de matérias escritas no site internet de Vatican News.

Por que a Igreja viu a necessidade de criar o Vatican News, o novo sistema de informação da Santa Sé?

É preciso ressaltar que não foi “a Igreja” que quis reorganizar a comunicação e a informação vaticana, mas foi o próprio Papa Francisco. De fato, ele foi o promotor da iniciativa da criação de um novo organismo unitário de comunicação, no intuito de mudar a própria abordagem da Santa Sé com a “notícia” e com o modo de transmiti-la e divulgá-la ao mundo. Não precisa dizer que o Papa Francisco é um comunicador nato, pois disso já tivemos muitas provas contundentes até hoje. Ao mesmo tempo, sabemos que ele sente a necessidade de uma Igreja que saia dos palácios e desça às ruas ao encontro de todo mundo. Nessa perspectiva, a reorganização da comunicação vaticana se insere no intuito e nos constantes esforços do Papa de dar um novo rosto à Igreja, um rosto mais atual, mais em conexão com as premências do povo e com os desafios cada vez mais difíceis que o mundo em que vivemos nos apresenta incessantemente.

Olhando para a Igreja como uma grande corporação que está presente no mundo inteiro, segundo você, qual o maior desafio comunicacional?

O desafio de se comunicar com verdade e autenticidade, que deveriam ser os alicerces de toda comunicação e ainda mais da comunicação da Igreja. Trata-se de um desafio muito delicado e cada vez mais atual, sobretudo no mundo em que vivemos hoje, em que tudo passa através do nosso celular que nos bombardeia diariamente com notícias muitas vezes falsas e veiculadas apressadamente, sem serem devidamente conferidas antes de sua publicação (quando não verídicas por específica intenção do autor do artigo ou da manchete falsa).

Como foi a reorganização da comunicação da Santa Sé? O que foi levado em consideração e priorizado?

Acabei de falar que vivemos em uma época altamente digital e vou acrescentar que vivemos em uma época de frenesi, caracterizada por uma rapidez impressionante. Algo acaba de ocorrer e ao longo de dois dias já não se fala mais nisso em prol de notícias e acontecimentos sempre novos que “engolem” – ao pé da letra – os precedentes. Diante disso, procurou-se providenciar aos ouvintes, aos espectadores e aos usuários do site do Vatican News uma comunicação essencial e pontual e, sobretudo, confiável, através de um único canal de comunicação em que trabalham muitas equipes diferentes de profissionais que só têm um intuito: serem verídicos na narração dos acontecimentos que dizem respeito ao Papa, à Igreja, ao mundo em busca da verdade.

Eu sei que pode parecer altissonante falar de “busca da verdade”, expressão muitas vezes inflacionada na comunicação, mas ela é sem tirar nem pôr a própria essência do nosso trabalho a serviço do sucessor de Pedro. A prudência na abordagem das notícias que dizem respeito ao Vaticano se torna ainda mais forte se considerarmos que o Papa Francisco é sempre destaque aonde quer que ele vá e qualquer coisa que ele faça. Neste sentido, nesta época do fenômeno das fake news, corre-se o risco constante de ler notícias inexatas ou relatórios manipulados sobre aquilo que ele disse ou fez, de acordo com a ideia ou a finalidade perseguida por quem escrever.

O processo de integração e gestão unitária dos inúmeros canais e meios de comunicação usados pela Santa Sé, na sua avaliação, qualificou o trabalho desempenhado?

Foi feito um trabalho impressionante para se tornar possível nossa realidade atual e esse trabalho está ainda em andamento, todo dia. No meu entender, o Vatican News, como ele se apresenta hoje aos usuários, fala desse grande trabalho que me atrevo a definir de uma certa forma “revolucionário”, pela finalidade de se criar um organismo comunicacional novo e unitário, em uma época de grandes divisões e conflitos em todos os níveis. Recordando a constante exortação do Papa para construirmos pontes e não muros, eu diria que a criação do Vatican News representou um pequeno filho dessa vontade de unir ao invés de separar, em absoluta contramão com a tendência do mundo atual.

No seu julgamento, o que o Papa espera da reforma da comunicação do Vaticano?

Já disse que o Papa sente fortemente a necessidade de uma Igreja que se coloque na escuta do povo, que saia dos palácios. Uma Igreja que se livre das suas sombras e mostre que não quer ficar em posição de domínio, mas sim de proximidade. Eu creio que o Papa espera, através dessa imponente reforma, contribuir a uma mudança importante da própria atitude da Igreja, que deve se tornar mais comunicadora que informadora, que deve procurar o diálogo na praça como forma de comunicação preferencial ao invés do monólogo dos balcões.

A comunicação do Vaticano prioriza o público interno ou externo?

Eu não diria que a comunicação vaticana prioriza um tipo de público em relação ao outro. A comunicação vaticana se dirige a todos, com o propósito de veicular notícias sobre a atividade do Papa, mas não só, pois grande espaço é também dedicado às notícias de atualidade e ao que diz respeito em geral à Igreja no mundo inteiro e, portanto, não apenas aos palácios vaticanos e à Casa Santa Marta. É uma comunicação de mundo, já que somos cerca de 40 redações linguísticas e cerca de 15 alfabetos diferentes. Uma pequena torre de Babel que deu certo.