O aroma doce de café quentinho pode ser sentido assim que a porta da casa é aberta. Quem olha a confeitaria Charlie Brownie não imagina que o seu projeto iniciou dentro de uma sala de terapia depois que Tiago Schmitz (36), jornalista e pós-graduado em marketing, entrou em uma depressão causada por problemas em aceitar a si mesmo e por trabalhar em lugares que também não aceitavam quem ele realmente era.

“Esteticamente eu tentava me portar e parecer o mais homem possível, mas, por dentro, eu ficava bastante incomodado com alguns preconceitos velados, algumas falas contra outras pessoas que eram homossexuais”, relata Tiago.

Foi durante as sessões que a psicóloga do empreendedor começou a instigá-lo a trabalhar algumas questões pessoais do passado. Assim, em 2014, nasceu a Charlie Brownie, inspirada no bolo de chocolate da avó de Tiago, inicialmente na cozinha da irmã e com as vendas ocorrendo por meio da página do Facebook, que é a mesma até hoje.

Do trabalho da faculdade para negócio próprio.

O ano era 2016, Guilherme Massena (25) estava na faculdade e precisava criar um produto inovador, sustentável e lucrativo para uma das disciplinas que estava cursando. A inspiração veio de uma carteira semelhante que existe no exterior e, então, o seu grupo adaptou para o tamanho e formato brasileiro.

Com o incentivo dos familiares, Guilherme e os colegas resolveram dar continuidade e tornar a Dobra algo real para a população do Brasil. “Muito mais pela percepção do que a gente poderia ser como empresa. Não sendo apenas uma geradora de lucros para o nosso bolso, mas também um vetor de mudança na sociedade”.

A visão de criar um negócio que tivesse impacto positivo na vida das pessoas e se tornasse um diferencial foi algo muito natural, tanto para Tiago, quanto para Guilherme. “Ser uma marca humana é muito mais difícil do que ser uma marca capitalista ao extremo”, assume Tiago. E foi isso que o motivou a criar um negócio totalmente diferente dos lugares em que trabalhava anteriormente.

Já Guilherme acredita em um negócio totalmente colaborativo, e foi por isso que ele e os seus colegas decidiram deixar o molde da carteira disponível no site da Dobra. “A gente brinca que todo mundo que baixa faz parte do nosso setor de P&D e ficam ali melhorando o nosso produto por fazer o molde de graça”. Essa é a forma que eles encontraram de incluir pessoas na comunidade da Dobra sem que elas, necessariamente, precisem comprar os produtos.

“A gente sabe que hoje uma das coisas mais importantes para uma empresa é ter uma comunidade forte”.

Guilherme Massena

Outra forma que as duas empresas encontraram para contribuir socialmente foi a parceria com ONG’s de Porto Alegre. No ano passado, a Dobra realizou uma ação junto com o Colégio Ivo Buhler, de Montenegro/RS, quando 85 alunos da escola puderam criar estampas para as carteiras. Dessas, 10 estampas foram escolhidas para serem vendidas no site e todo o lucro gerado foi doado para a reforma do pátio.

Já a Charlie Brownie apoia 26 ONG’s pela cidade, seja com doações financeiras ou de doces, como também abrindo espaço de um dia de vendas e revertendo os lucros para alguma instituição. Ambos acreditam na importância do atendimento personalizado e de como é fundamental desenvolver relacionamento com seus clientes. “A gente tem que fazer de tudo para que as pessoas percebam que são pessoas conversando com pessoas”, diz Guilherme.

Dessa forma, desde o primeiro contato que se tem com a Charlie Brownie ou com a Dobra, é fácil de perceber que há pessoas por trás que realmente querem oferecer o melhor atendimento. Para Tiago, esse é o diferencial. “É ser uma marca que procura ter discurso e prática humanos”, conclui o empreendedor.