No mês de abril tive a oportunidade de entrevistar Fran Bortolossi, DJ, produtor e fundador da Colours, uma das maiores festas de música eletrônica do sul do Brasil, que neste ano completou 10 anos de existência. A entrevista na íntegra você confere logo abaixo!

Fundação   

“Eu já era DJ antes de fundar a Colours. Como na época havia poucos lugares para discotecar, eu não tinha muito espaço para tocar. E foi aí que surgiu a Colours: um projeto onde eu pudesse apresentar minha música. 

O número de festas de música eletrônica aqui no Rio Grande do Sul era muito baixo na época. Eu olhava lá pra cima, em Santa Catarina, e via eventos como o Warung chegando a atingir a marca de 5000 pessoas. Pensava: cara, é impossível que não tenha pelo menos 400 pessoas aqui que gostem da mesma coisa que gosto. Foi a partir desse pensamento que comecei a trabalhar.

Desde o início vimos que era algo que podia funcionar. O projeto foi então criado em 2009, na cidade de Farroupilha. Logo na primeira edição, quase todos os ingressos foram vendidos; na nossa festa de 1º ano, tivemos nosso primeiro sold out. Foi a partir daí que percebemos que a Colours era um projeto que tinha potencial para crescer muito mais. Aí eu pensei: cara, esse projeto aqui vai dar certo. Consegui visualizar. E de fato funcionou”.

Local

“Atualmente a Colours possui uma área praticamente fixa, o Jockey Clube Multieventos, em Caxias do Sul. O local é arrendado, ou seja, usamos ele para a realização das festas, mediante pagamento ao dono do local. Hoje ele se encontra em processo de expansão. O andar de baixo, que antes era usado como depósito ou escritório nosso, não podia ser aproveitado para eventos, devido à algumas irregularidades. Só agora o local está sendo adequado. A porta aumentou, agora temos bares, banheiros, etc. E a parte de fora ganhou um deck novo, o que também permitiu que o número de ingressos a venda se tornasse mais alto”.

O nascer do sol no Jockey se tornou marca registrada dos eventos (Foto Colours).

Agências

“Hoje, além de pessoas fixas que trabalham conosco de forma integral, diversas agências são contratadas para os eventos da Colours, atuando em áreas distintas. E elas não são fixas para todos eventos. Enquanto uma trabalha com os contratos para prestação de serviços na hora (como limpeza, som e atendimento), outra cuida de nossa identidade visual, outra de nossa direção de arte e comunicação nas redes sociais, e assim vai. 

No nosso último evento, por exemplo, de 80 a 90 funcionários estavam envolvidos diretamente, além das relações indiretas. A contratação do Joris Voorn (headliner do evento) foi feita através de uma agência do Brasil, onde muitas pessoas trabalham. Então, obviamente, existe muito mais gente que colabora”.

Redes Sociais

“Atualmente se torna cada vez mais difícil atingir o número de pessoas desejadas através das redes sociais, devido ao constante aumento no valor do impulsionamento nessas mídias. O impulsionamento das publicações nas nossas redes, então, é usado de acordo com a necessidade. No nosso último evento, por exemplo, praticamente não usamos ferramentas de impulsionamento, porque o evento em si já estava caminhando muito bem. Havia uma publicidade instantânea, devido ao apelo do nosso aniversário de 10 anos e ao artista chamado para tocar, o holandês Joris Voorn, conhecido mundialmente. Pode-se dizer que o nome de festa e o artista principal já foram o suficiente para impulsionar todo o evento”.

Patrocinadores

“Hoje temos patrocínios médios. Com a parceria da Redbull, por exemplo, compramos 40 caixas e ganhamos mais 10. Nós já tivemos patrocínio da Philip Morris, Budweiser, mas hoje me dia estamos sem. Já chegamos a receber oferta de patrocínio de outra marca de energético, mas resolvemos continuar com a bonificação da Redbull. Mesmo não recebendo um valor real, achamos mais vantajoso continuar com a parceria da Redbull porque ela consequentemente aumenta o consumo de outras bebidas, como vodka, gim, dentre outras”.

A ideia de qual artista chamar vem da agência ou você também escolhe quem vai tocar?

“Muitas vezes sou eu. Como viajo internacionalmente, como DJ, acabo conhecendo outros artistas que tocam nos mesmos clubes que eu. Me interesso pelo som deles e faço a proposta de vir tocar aqui no Brasil. Muitas vezes a Colours é o evento de estreia do artista aqui no país. Isso permite que o DJ ganhe visibilidade em outras regiões e que a Colours esteja sempre inovando e atraindo novos públicos. Ser DJ facilita esse processo, pois como tenho certo renome, a comunicação com o artista se torna mais fácil”.

Registro de Marca

“Depois de alguns anos tentando, em 2018 consegui fazer o registro INPI, que garante a exclusividade da marca Colours. Antes ela não era protegida, então se alguém decidisse fazer uma festa com o mesmo nome, eu não poderia tomar nenhuma medida legal contra isso. Agora, com esse registro, posso rodar com ela pelo Brasil. E essa é uma intenção. Dessa forma, a marca ganha visibilidade em outros lugares, gera interesse por parte de organizadores e, consequentemente, cresce ainda mais”.

Evento de 10 anos – Problemas?

“Tivemos alguns problemas na montagem do último evento. Ela já estava sendo feita há dias, mas o Jockey acabou negociando um almoço, naquele dia. Isso fez com que precisássemos desmontar e remontar parte de nossa estrutura.

Depois de tudo, caiu uma chuva de granizo. As calhas sobrecarregaram e uma parte do forro do telhado veio abaixo. Tudo isso no dia do evento. Faltou luz em toda região e o Jockey ficou alagado. Os banheiros e nosso escritório ficaram uma hora e meia sem luz, até um gerador chegar para fornecer a energia. Tínhamos 4 TVs na parte de fora do local, que transmitiria o DJ principal ao vivo. Elas ficaram encharcadas. Eu até havia chamado um amigo meu, do Rio de Janeiro, para me ajudar com essa transmissão. Cheguei a pagar a passagem dele, mas no fim tivemos que abdicar a ideia da transmissão.

Geralmente temos 2 geradores para Colours: 1 para a festa e outro de reserva, em stand by. Nós alugamos o Jockey com a eletricidade deles, então a gente depende da energia deles para escritório, banheiros, wi-fi (para validação dos ingressos). Em nenhum momento foi cogitado cancelar a festa, foi um boato mesmo. Estávamos planejando o evento há 5, 6 meses. A sorte foi que isso caiu antes e não na hora do evento. Se tivesse caído na hora teríamos que parar o evento, porque entrou muita água. A gente nunca cogitou em fechar. Eu estava com meus amigos e pegamos rodos pra tirar a água. Foi assustador”.

Evento de 10 anos – Resultados

“Nós batemos todos os recordes neste último evento, em questão de venda de ingressos, venda nos bares, etc. Esse evento deu um belo fôlego para gente, em questões financeiras, de se capitalizar novamente, etc. Estávamos precisando disso, porque os últimos anos não foram fáceis para quem produz eventos. A economia piorou muito, então a venda de ingressos, captação de patrocínios e negociação com fornecedores se tornaram mais difíceis. Além do mais, agora se torna mais difícil chamar artistas internacionais devido à alta do dólar. Em 2014, por exemplo, trouxemos o Dubfire, DJ que custou 20 mil dólares. Mas o dólar era R$2,70. Hoje, um DJ de 13 mil dólares se torna mais caro, porque o dólar chegou a R$4,10. 

Hoje em dia, artistas internacionais, como o Joris Voorn, vêm ao Brasil para ganhar menos do que ganham na Europa. Lá podem chegar a ganhar 20, 30 mil euros. Aqui no Brasil um cachê assim é inviável. Então ele vem mais pela viagem, por tocar em outros locais, ganhar reconhecimento, etc.

E nessa última festa eu senti que deu uma renovada. O feedback foi muito positivo. E quando eu vi que a festa ia bombar, que 2300 pessoas iam vir, eu precisei chamar mais caixas, atendentes de bar, etc. Nós modulamos a festa. 

A gente custeia a logística interna do Brasil. Existem diferentes acordos. Pode ser que o valor do vôo dele seja dividido entre os promoters que estão trazendo ele para o Brasil (flightshare). O ideal é que ele pague a própria passagem. Aí vem pra cá, toca em mais de uma festa e volta”.