Com uma trajetória que percorre desde sua formação na cultura da capoeira até a apresentações culturais dentro de escolas da periferia da região metropolitana de Porto Alegre, com o Grito Afro, o pesquisador e coordenador do Instituto Cadê Zumbi? Mateus Ceni de Oliveira descreve os motivos pelos quais o espaço educativo foi criado e como suas manifestações em prol da valorização da cultura negra são importantes para o contexto sociocultural brasileiro. A reportagem ocorreu no espaço MEME, local onde as aulas do Instituto Cadê Zumbi? acontecem.

 

Qual é a importância do conhecimento para além do ensino educacional formal?

Do meu ponto de vista, como um agente cultural, que também é professor, acho importante. A gente tem que conseguir fazer esse trânsito do conhecimento que articulamos na escola e na universidade. Ele tem que ter um significado, um sentido advindo de outras realidades que não somente os métodos formais de ensino. O educador tem que ser capaz de trazer essa realidade para dentro da universidade, mas a universidade também tem que ser capaz de processar esse conhecimento. Fazer esse processo de extensão que é dialogar com o que ocorre fora dela. Por que, senão a escola e a universidade acabam produzindo uma cultura acadêmica “in vitro”, onde a instituição fala sobre tudo a partir, somente, do olhar dela. O espaço formal tem que sair de seu território ao falar do outro, perceber os contrastes que esses outros espaços não formais apresentam e voltar com um conhecimento transformado ao seu ambiente de origem.

 

Como começou a história do Cadê Zumbi?

O Cadê Zumbi teve seu início quando eu comecei a preparar estudantes de licenciatura para dar aula nos programas de educação integral, vinculados às instituições escolares regulamentares. A gente já começou a operar para além da instituição, porque os grupos culturais tinham um projeto a criar e nós já propúnhamos outras formas de fomentar, de pesquisar a cultura com o intuito de preservação através dos relatos. Foi quando percebemos que já éramos um coletivo, uma instituição a parte do formal, da escola e que a Secretaria de Educação define.

 

O que o indivíduo ganha através do estudo de culturas fora do âmbito escolar?

A própria pergunta do nome do nosso coletivo surge disso, Cadê Zumbi?. A pergunta surge da ideia de procurar quem é zumbi dentro de nós. Pensar o que significa a luta do povo negro dentro de cada um de nós, independente de etnias, de sua descendência. É extremamente importante para poder lidar com a diferença. Se tu for contextualizar que o Brasil, que a gente fala que é um país democrático, em determinados espaços da sociedade não tem representatividade igualitária. E, se fosse proporcional à demanda, a quantidade da população, no mínimo, deveria ter 50% de representatividade negra, em todos os aspectos da sociedade. Que, na realidade, é uma maioria da população, mas uma minoria na questão de direitos em vários aspectos. Por exemplo, se a gente perceber que não está sendo representativo, a gente precisa entender que se torna necessário conhecer desde a origem dessas pessoas até reconhecer a presença delas entre nós, isso é imprescindível para entender o Brasil. A nossa história não é uma história única. O Brasil é um povo muito miscigenado, é uma riqueza. Você poder olhar a diversidade cultural do Brasil é muito importante, mas tem que olhar com a intenção de contextualizar as diferenças. Eu acho que para quem vivencia a cultura é óbvio, ter a perspectiva de não sermos o único grupo para descentralizarmos nossas perspectivas. A minha história não é a única história e como eu dialogo com o diferente é essencial. O diferente está no nosso corpo. Por mais euro-descendente que sejamos, a nossa forma de ser sofre influências afro, sofre influências indígenas, por mais que neguemos elas.

 

Qual é a intenção do espaço ao formar educadores sociais?

Então, o Cadê Zumbi? é um coletivo de pessoas, de formadores culturais, que pesquisam e que praticam o que fazem. Um dos projetos que temos dentro da instituição é o Grito Afro e ele surgiu quando percebemos que a gente tem que ensinar o que a gente está fazendo porque a intenção é criar possibilidade de que esse conhecimento não fique somente dentro do grupo. A gente procura fomentar, achar novos parceiros para que possamos sensibilizar mais pessoas através de uma perspectiva crítica, para pensar quanto como funciona essa sociedade que por vezes representa uns e não representa outros. Porque o intuito é que ele acabe transcendendo. A ideia de fazer uma formação de educadores é, também, de ir além ao que a gente pode atender. A gente está preparando pessoas para fazer parceria com a gente com o objetivo de que essas ações aconteçam em outros locais. Formando assim, multiplicadores. Esse é, então, o perfil de quem participa do Instituto Cadê Zumbi?, o de ensinar uma nova perspectiva de conhecimento, o de conseguir contextualizar o saber, o de saber o porquê se faz essa ação.

Turma Grito Afro 2019: Formação de professores de bandas afro-escolares. Foto: Mateus Ceni de Oliveira.

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