Era 7 de fevereiro de 2009, quando me dei por conta estava desembarcando no aeroporto internacional de Heatrow, em Londres, e pegando um táxi direto para a cidade de Cambridge, onde passaria os próximos seis meses deste ano. Não tinha nenhuma idéia do que me aguardava, me sentia confuso e o cenário em que me deparava fazia-me sentir aterrorizado. O frio era congelante e penetrava cada falha de roupas fabricadas para um inverno não tão rigoroso como o da Inglaterra, o céu era cor de cinzas de cigarro, o chão branco de neve, não existia sinais de verde na vegetação da estrada, e sim apenas árvores completamente secas e os rostos dos passageiros dos carros eram pálidos e frios. Fiquei chocado, me lembrei que um dia antes eu estava tomando banho de piscina sob sol escaldante, observando as árvores sub-tropicais de meu pátio de casa. Logo me perguntei: - Que diabos eu vim fazer aqui? Que furada que eu me meti!
A insegurança e o medo me dominaram, estava longe de casa, não falava uma palavra de inglês e não tinha ninguém para me dar suporte nos momentos difíceis. Estava morando em uma casa estranha, com pessoas estranhas, e logo na primeira semana me encontrava em maus bocados. Peguei algum vírus - ou talvez tenha sido o impacto emocional da mudança repentina - ardia em febre de 40 graus e minha cama mais parecia uma banheira de tão molhada. Ia na raça e na coragem tomar banhos gelados nas madrugadas, para ver se não caía de tontura pelos corredores da casa. Se alguém me ajudou? Que nada, minha casa era de ingleses e como tal frios e céticos quanto aos meus sintomas. Eu em estado pré-morte e eles me diziam que uma aspirina resolveria meus problemas - será que nós brasileiros somos “fiasquentos”?
O cenário não se alterava, e cada dia as coisas pareciam mais nebulosas, a mudança tão brusca de cultura me impactava bastante. A comida não era boa - se resumindo á batatas - todos os dias eram cinzas e escureciam às quatro da tarde, nos ônibus que eu entrava não haviam os sorrisos corriqueiros do Brasil, as pessoas não pareciam tão gentis, e pasmem, nem as crianças sorriam! É, talvez meu bom humor já não fosse mais o mesmo. Meu positivismo estava visivelmente afetado, e acordar dia após dia sob céu cinza me deixava muito, mas muito mal-humorado. Contava os dias para ir embora de lá, e ver um céu azul anil.
Entretanto, paralelamente a essa fase negra, ingressei na escola BellScholl, e tentava fazer amigos como um surdo-mudo, já que meu inglês se resumia a pedir um BigMac no McDonalds. Graças a deus conheci pessoas compreensivas para com o meu analfabetismo, e na falta de palavras compartilhávamos as primeiras dificuldades entre olhares que tudo diziam. E, sendo a solidão muito grande, depois das aulas íamos todos para os cafés ingleses, onde ficávamos horas “conversando”, para passar o tempo e não ficar em casa olhando para paredes de madeira - sim as casas são todas de madeira, e tudo se ouve de todos os cômodos.
Mas a vida é cheia de surpresas, com o tempo a minha percepção se alterava e minha cara emburrada das primeiras semanas virou gargalhada com pessoas dos mais diversos cantos do mundo. Começava a apreciar a beleza que existia naquele mundo tão diferente. Os prédios históricos, a cultura riquíssima, o transporte eficiente, a sensação de segurança nas ruas, o respeito entre as pessoas de diferentes idéias e estilos, a incrível experiência de todos os dias conhecer pessoas tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas, e principalmente, poder aprender e interagir com elas.
Havia colocado “lentes coloridas” em meus olhos, e o que antes era depressão agora virava atração, ou melhor, fascinação. Meu inglês já estava autossuficiente - yes! - e eu e meus amigos trocávamos os cafés por cervejadas nos pubs ingleses. Criava laços que iam além de meras amizades de bar, as quais superavam algumas relações de anos construídas no Brasil. Havia ganho irmãos.
Na mesma rapidez que havia adquirido novas palavras em meu vocabulário, os dias haviam passado voando, e eu não tinha sequer percebido. Após um difícil período de adaptação eu me sentia feliz, me sentia em casa. As andanças de bicicleta pela pequena cidade, os jogos de futebol das quartas-feiras, os encontros nos parques de grama verdíssima, as bebedeiras e risadeiras, as baladas de sempre, tudo era já muito familiar, bem como as pessoas que faziam parte de meu cotidiano. Estava adaptado e impressionava-me com a contradição da vida, se por um lado no início não queria ficar lá, agora era muito difícil pensar em ter que voltar para o Brasil, por mais que minha volta já estivesse traçada.
Na semana que antecedia minha despedida e a da maioria - visto que todos foram para ficar 6 meses - eu sentia os primeiros golpes do desprendimento emocional, cada adeus de amigos era como um velório de filme de terror, só se comparando aos pesadelos que eu estava tendo, onde alguém tentava me fazer voltar para o Brasil e eu chorava para ficar. Não vestíamos pretos como em um velório, mas nem precisava, as “lentes preto e branco” cobriam os olhos de todos. O fim havia chego, e para fugir desta realidade ficávamos 24 horas juntos, nos escondendo entre risos melancólicos e garrafas de vinho, como se pudéssemos realmente enganar o tempo.
Não só não podíamos, como quando eu percebi estava desembarcando do avião no Brasil, e tinha que fazer esforço para fazer cara de animado em rever todos, pois por mais que estivesse com saudades, sentia-me triste . Era difícil de compreender que da noite para o dia, eu estava vivendo novamente outra vida, era difícil de aceitar.
Ainda esses dias estava eu caminhado pela faculdade, quando escutei algumas pessoas comentando que queriam fazer intercâmbio, mas que não queriam perder um semestre de seus respectivos cursos - Eu ri. No final das contas só conseguimos perceber o que realmente tem valor quando saímos dos ambientes viciados em que estamos inseridos.